A Medida de Todas as Coisas

O que é um livro? Lançar um livro tem importância pra quem? Quando o autor é famoso, é sempre um acontecimento. Se é um escritor iniciante, nem todo mundo dá atenção. Mas para quem escreve, o livro físico, aquele que a gente apalpa e cheira, tem um sabor de vitória, de realização. Como me disse Marcelino Freire numa entrevista recente que fiz com ele para o Garapa Paulista (www.garapapaulista.com.br), como explicar à sua mãe que você lançou um livro se ele está só na internet? O filho de uma amiga também só passou a considerar a mãe uma escritora quando viu que ela se preparava para ter sua obra no papel. E ele é um adolescente acostumado ao mundo virtual.

Para mim, o lançamento do livro de contos "A Medida de Todas as Coisas" (Editora RDG), no próximo dia 9, terça-feira, é uma grande satisfação, uma realização. Ao meu lado, 14 autores queridos que admiro, compartilhando páginas e afetos: Adriana Calabró Orabona, Berimba de Jesus, Caroline Ramos, Danita Cotrim, Daniele Gomes Tavares, Faa Morena, Giovanna Vilela, Lidia Izecson, Marlon Muraro, Matheus Hruschka, Nina Ferraz, Patrícia Cardozo, Sandro Pereira Tangirino e Ziyad Abdel Hadi.

Estou feliz, sem medida.

 



Escrito por Angela Senra às 22h46
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Ela aprendeu a desprezar com a mãe. Olhar vertical lá longe, boca semi aberta, corpo duro virado para o oeste. Se a contrariavam, se o ego não fosse amaciado mil vezes, nascia o ódio disfarçado de altivez. Não aceitava que fugissem da luta, jamais desistia de uma briga. Seu prazer maior era a derrota alheia, a rendição dos que sucumbiam à sua artilharia pesada. Estivesse certa ou errada, não vinha ao caso, estava sempre certa. Conhecia o que todos desconheciam, caminhava sob as águas como Jesus fosse. Quem disse que não podia ser o Cristo reencarnado? Ninguém mais adequado que ela, mulher de moral irrefutável que carregava a verdade no ventre e na testa, em cada mão e no estômago. Quem sabe a Virgem Maria, mãe de Deus. Papéis menores não cabiam a alguém como ela. A glória era seu caminho e destino. A verdade e a vida. Pelas vias do rancor e do ciúme, caminhava santificada por si, desprezando quem ousasse não apoiá-la. Aprendeu com a mãe a ser pedra, não pedregulho. Pedra faz sangrar ao ser atirada na testa, marca para sempre, impõe. Pedregulho é coisa que se pisa e dói pequeno. Pedra, não.



Escrito por Angela Senra às 13h35
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Abri os braços e caminhei devagar pela rua escura, cheirando a chuva de ontem. A noite tem poder sobre mim e eu andava desarmada, quase louca, quase enferma. Os olhos alcançavam centímetros e pouco importava a miopia. À noite os gatos são pardos e veem. Eu continuava transparente e cega no breu. Passo um passo dois passo três, um de cada vez até enfiar o pé num buraco raso, fofo. Retirei e ficou a dor do entorce, latejando. A luz forte de um carro me revelou na noite. O carro parou, um homem abriu a porta do motorista e estacou. Era louca, por acaso? E o senhor, é? Meus olhos se protegiam daquele falso amanhecer. Desviei e segui descendo a rua, de novo escura, de novo noite, de noite eu.

 



Escrito por Angela Senra às 16h04
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Cortina e persiana

 

Ele era silêncio.

Aliança na mão esquerda, nos olhos duas estrelas penduradas.

Todos os dias me cumprimentava com um toque frouxo no rosto. Eu tentava reter um dedo, um pedaço de braço, de ar. Quando se distraía, eu me encostava nele como uma cortina. Ele desviava se desculpando feito uma persiana.

Minha tia Helena diz que só se conhece um homem na cama.

Nunca seremos apresentados.



Escrito por Angela Senra às 23h28
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Até quando posso caminhar sem encontrar paredes que me alcancem?

Até quando posso ficar sem deparar com pontes que me transponham?



Escrito por Angela Senra às 12h20
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No skyline da cidade, a cinza poluidora escondia o azul. Nuvens se avolumaram uma por cima das outras e derramaram. Secretamente escondida eu observava as luzes fragmentadas da natureza. Nenhum silêncio me distraía, estava integrada ao momento como o pó nas envergaduras da persiana cor de névoa. As lembranças que um dia me atormentaram passavam como num filme mudo e deliberadamente apressado. E eu que não acreditava em reencarnação me vi nascida de novo no mesmo corpo. Morrer foi bom.



Escrito por Angela Senra às 12h16
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Volta para casa

Empurrou a porta da cozinha com a lateral do corpo, colocou as sacolas sobre a mesa deixando escapar um tomate que correu até os pés da mulher. Ela o recolheu e começou a esvaziar os sacos. Abobrinha, carne moída, alho, cebola, grão-de-bico, lentilha, trigo, hortelã. Em poucos minutos estava tudo separado, picado, moído, de molho ou dentro das panelas que ferviam em cima do fogão.

Faizel puxou uma cadeira e sentou na ponta da mesa seguindo os movimentos da mulher. Ele não tinha a autoridade de seu pai. Depois de desembarcar no Brasil aos 12 anos foi perdendo a força. Mesmo indo à igreja todos os domingos, estava longe de casa, da sua cultura, isolado em um país de hábitos liberais. Muitos de seus conterrâneos sentiam-se à vontade por aqui, mas Faizel sempre quis voltar para a Síria. Planejava viver a eternidade em Damasco. Era a hora certa de partir.

_ Você vai se atrasar, está pensando em quê?

Não respondeu. Ergueu o corpo da cadeira e ficou olhando para a mulher que falava e gesticulava com a faca na mão direita. O pé escorregou e ele viu o chão do mercado onde seus pais vendiam especiarias. Cravo-da-índia, canela, açafrão, páprica, cardamono, cominho, pimenta da jamaica, bhar, snoubar, summac, tomilho, zahtar, gergelim. O perfume das frutas secas e do carneiro assado reuniram-se ao azedo do porão do navio que o trouxe para cá. Uma chuva vadia balançava a embarcação como seu pai costumava fazer com ele quando roubava figos e tâmaras escondidos dentro do armário da cozinha. Depois, o pai se arrependia e calava por dias. Era um homem bom que cometera vários erros. Erros que o obrigaram a fugir para estas terras distantes que nunca agradaram ao pequeno Faizel. Mesmo correndo riscos, o velho Fadel retornou à Siria para buscar a mulher e os outros dois filhos. Se uma viagem de navio durante quatro meses foi um inferno, imagina fazer o trajeto três vezes. Só o amor e a fé explicam a determinação do pai. Ele aceitou até mesmo que eu seguisse outro caminho, que fugisse do destino de comerciante para ser engenheiro.

A adaptação ao novo país não foi fácil para Faizel. A comida, os cheiros, os hábitos dos brasileiros o incomodavam. Quando Fadel retornou ao Oriente para buscar o restante da família, o menino ficou hospedado na casa dos pais de Esther. As crianças não se viam muito, pois Faizel passava o dia trabalhando na loja de tecidos do futuro sogro, que mais tarde seria sócio de seu pai. Junto com as irmãs, Esther ajudava a mãe nos deveres de casa e na cozinha. O que mais agradava Faizel depois de um longo dia de trabalho era o cheiro da comida sendo preparada para o jantar e o som das vozes das mulheres de sua terra. A língua que ele não queria esquecer, os odores penetrando na sua pele. Eram os mesmos que sentia agora estatelado no chão da cozinha de sua casa. A casa construída há trinta anos para morar com sua Esther. Os sons eram diferentes. Agudos aflitos ao invés de doces trinados. Em uma das paredes, uma foto sua ao lado da mulher ria para ele. Era hora de voltar à sua terra.



Escrito por Angela Senra às 12h14
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Sabe dias que tudo parece não encaixar? Hoje está assim, desencaixado, desempacotado, perdido. Não consigo falar com quem preciso e assim perco precioso tempo que poderia estar usando para escrever. Tempo perdido existe?



Escrito por Angela Senra às 13h38
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Doce Maria

(para Maria Eduarda)


Como a gente sabe que ama?

Onde se busca o amor?

Não sei

Só sei que ao ver você

Meu coração soltou do peito

Fugiu

Encontrou o seu

Fez parceria

Pra toda vida



Escrito por Angela Senra às 18h39
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Semana estranha essa. Cheia e vazia. Quente e fria. Tanto a fazer e sem tempo para o que importa. Equilíbrio e medida. Saudade e distância. Sono e êxtase. Perfeito mais que imperfeito, lá vou eu para a terra do nunca.



Escrito por Angela Senra às 01h11
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Estou em fase de projetos, mas como é difícil organizar as ideias de uma maneira criativa, instigante, que me agrade. Vou tentar me inspirar em Clarice, que disse certa vez: ‎"Ordenando as coisas, eu crio e entendo ao mesmo tempo. Arrumar é achar a melhor forma". Estou em busca da forma.



Escrito por Angela Senra às 22h23
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Difícil conviver com meus vazios. Mais do que nunca, estou só. Torrencialmente isolada no meu abismo. Desfigurada, não pertencente. De um lado, a liberdade. De outro, a opressão de quem deseja que eu seja o não eu. Conflito de uma existência.

Encontrei uma parte de mim sentada no fundo da sala, silenciosa e triste.

O desafio da união que não desejo me afeta agressivamente. Não quero contato com uma parte que me constitui. Busco o isolamento do que não constrói. Quero a faixa neutra, o pedaço que é sem perguntas.

Encontrei uma parte de mim fechada dentro da caixa, silenciosa e triste.

Saí. A cada movimento contrário do conflito não desejado o coração dispara, em transe. Sufoca e teme. Onde está a faixa neutra, o espaço sem perguntas?

No desespero, volto ao fundo da classe. Quieta e afogada.



Escrito por Angela às 23h52
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Pára tudo, está horrível. Onde vocês pensam que estão? Isso aqui é uma obra de arte. O-bra de ar-te. Entendeu? Ar-te, com A maiúsculo. E vocês estão agindo como idiotas, não sabem nem falar. Cadê o diretor dessa porcaria? Não adianta ficar tratando com idiotas, preciso falar com o diretor. Minha filha, olha a postura. Perderam a voz? Comecem de novo, agora do início. Tudo de novo. Mas lembrem-se que não é conversa de comadres, é uma obra de arte!



Escrito por Angela às 15h01
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Como está difícil trabalhar, só tenho vontade de escrever, escrever, escrever. E ler, ler, ler.



Escrito por Angela às 15h00
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quando acordar de noite
espreita
quieto e silencioso
a noite continua dormindo
você
acordado e esperto
precisa esperar
espere
a noite espreita
e passa
e você fica



Escrito por Angela às 12h13
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